Educação começa em casa (de colorir)

15/08/2017

Bodil Jane
Vamos começar pelo começo, até para que você entenda toda a polêmica e, o mais importante, o real objetivo desse... digamos... textão.

Lá no comecinho do ano, a Casa Vogue publicou um vídeo onde a atriz Bruna Linzmeyer abria as portas da sua casa nova. E não tem porque eu continuar antes que você assista ao vídeo e veja as fotos da matéria. Essa etapa é importante, vai lá que eu tô aqui pra gente seguir a prosa. :)


Paredes sem revestimento, manchas, buraco na parede, imperfeições, um balanço no meio da sala, uma poltrona rasgada, um sofá desgastado... o que me chamou a atenção na primeira vez em que assisti ao vídeo foi a paixão da Bruna pelas sutilezas e significado que ela atribuía a cada canto, a cada memória. Uma moradora, sem sombra de dúvida, de uma sensibilidade extrema e uma casa singular, poética, que se fundia com a personalidade dela em vários momentos do vídeo. Muitas imagens, por si só, como o buraco na parede e as manchas dos quadros não faziam muito sentido pra mim, até que a Bruna aparecia para explicar o motivo deles estarem ali e isso fazia total sentido... pra ela. Pronto. 

Um detalhe que me cativou logo no começo do vídeo: essa é sua primeira casa. E eu não pude deixar de me lembrar da minha primeira casinha, a primeira Casa de Colorir, que era um laboratório de experimentações, de realizações de desejos, de liberdade! E eu senti muito na Bruna também essa falta de pudor, de critério, essa necessidade de se libertar e de fincar a sua bandeira no seu reino, só seu. 

Se você for analisar o meu texto até aqui, vai perceber que eu não usei nenhum adjetivo com base na minha opinião pessoal para descrever sua casa. "Feia, bonita, cafona, chique"... é claro que eu tenho a minha opinião, mas esse não é o foco desse bate papo. Aqui, não quero propor uma reflexão sobre o gosto de cada um, mas sim, sobre o OLHAR de cada um. E são coisas bem diferentes.

Quando terminei de assistir ao vídeo, desci a página e fui parar nos comentários. Sim, sou daquelas bravas guerreiras que ainda têm coragem de ler os comentários da globo.com, pois acredito que eles são um grande termômetro da relação do brasileiro com a internet. Sempre me arrependo e dessa vez não foi diferente:


Como sempre acontece, saio do computador meio atordoada, tentando digerir a falta de empatia desses comentários tão impessoais, mas ao mesmo tempo tão ásperos. Só que, dessa vez, essa minha reflexão tinha um gosto diferente, mais amargo, pois tocava muito na questão de como as pessoas enxergam as suas casas, as casas dos outros, e como esse escudo do "essa é a minha opinião" abafa uma questão mais sutil e delicada: a do olhar. Um olhar mais generoso sobre o local onde moramos e onde os outros moram. E esse ponto o Casa de Colorir sempre se propôs a discutir.

Ser anônimo é uma benção, mas ao mesmo tempo um perigo na internet. Eu fico com muita vontade de responder essas indelicadezas uma a uma mas, como sou uma "pessoa pública", tenho que fazer a fina. Por outro lado, ser anônimo acaba com essa finesse né? A capa da invisibilidade é uma proteção, mas também uma arma. E ela fere. O meu prêmio de consolação é ficar respondendo mentalmente essas pessoas. A primeira respostinha desaforada que me veio à cabeça foi: "Ahhhh, sua casa deve ser lindona, chique, de revista pra você estar falando isso, né?". Então, num segundo momento, caio em mim e a constatação não é feliz: pelo contrário... essas pessoas que (ainda) não têm um olhar mais sensível e generoso sobre o que é decorar a própria casa provavelmente não estão felizes com a sua. Não conseguem enxergar a beleza do imperfeito, do inacabado, do em construção. Essas pessoas não conseguem olhar com sutileza para uma casa singular, mas que é a cara da dona pois... não sabem. Apenas não sabem. E não fazem. Nem a própria casa, muito menos a casa dos outros. Como ser feliz com um olhar tão duro, me diz? Sobra opinião e falta intuição.

Desde que o Casa de Colorir surgiu, sempre tive um certo bloqueio de chamar esse espaço de um "blog de decoração" pois, junto com o termo, vinha uma série de estilos, técnicas e regras as quais eu não estava disposta a seguir, muito menos compartilhar. Esse sempre foi um blog de morar. Eu nunca quis ensinar ninguém a decorar a própria casa, não sou decoradora e, aceitem, provavelmente nunca serei. Eu sou jornalista e, acima de tudo, moradora, como você. O que eu tenho tesão, mas tesão mesmo, é constatar que um texto meu teve a capacidade de acender uma faíscazinha aí dentro, de fazer você tirar os olhos da tela e enxergar a própria casa com um olhar mais afetuoso, menos crítico, mais livre! Gente, o mundo tá tão doido, mas tão doido, que a nossa casa é, cada vez mais, o nosso refúgio, o nosso reino! Se a gente não tiver liberdade de sermos nós mesmos pelo menos nesse espaço, nossa, que triste viver!

E depois de digerir ~ parcialmente ~ esses comentários, resolvi publicar essa repercussão na página do Facebook aqui do blog e convidar os leitores para se juntarem a essa reflexão. Pra minha felicidade, esses são os comentários de quem segue o Casa de Colorir e que já está no caminho dessa mudança de olhar:


Relativização, afeto, empatia. <3 Somos uma rede, somos muitos, e estamos juntos.

Esse não é um texto sobre pessoas boas e pessoas ruins, sobre o bem e o mal. Esse é um texto sobre o propósito do blog e como podemos desenvolver um olhar mais sensível sobre a forma como moramos e nos expressamos nessa nossa casa. Quantas pessoas que seguem o blog chegaram aqui "de mal" com a própria casa? Com vontade de jogar tudo fora e comprar tudo novo? Pois é. Com afeto e paciência a gente vai se dando a chance de amolecer esse olhar, trazer mais significado e menos regras e fazer as pazes com o espaço onde a gente mora. A Bruna parece tão feliz, dá tanto gosto em ver o seu orgulho em abrir as portas da sua casa pra tanta gente que ela nem conhece. Não quebra essa energia não, não seja essa pessoa. <3 

Esse texto é um agradecimento aos leitores do Casa de Colorir. Empatia decorativa, nós praticamos. 





PS: Fiquei pensando se eu deveria ocultar o nome das pessoas que comentaram, para preservá-las. Decidi não ocultar, pois acredito que as pessoas devem se responsabilizar pelo o que dizem, na vida real e na virtual e os comentários não estão fora de contexto. Beijos de luz.

Mudar é preciso

05/08/2017

7 anos de blog. Se-te anos! De um projeto despretensioso, que acabou mudando o rumo da minha carreira, da minha vida. Os primeiros 3 anos foram intensos, cheios de posts! Muito "Faça Você Mesmo", muito passo-a-passo, muitas dicas de decoração... logo de quem? Veja só, de uma não decoradora. De uma leiga, de uma amadora. Ou seria amante? Pois é. O blog me ensinou que pessoas que amam vão longe. E pessoas que colocam amor no que fazem vão além.

Brunna Mancuso
O Casa de Colorir nunca teve a pretensão de inspirar ninguém, tadinha de mim, ainda mais num assunto o qual não dominava. O que eu estava fazendo era experimentar, documentar e dividir essas descobertas, sei lá, comigo! Mas os leitores vieram, descobriram junto comigo e... ficaram. E hoje consigo identificar que não foi o conteúdo de decoração o ponto que mais chamou a atenção e conquistou os leitores. Foi a forma de dividir as experiências, o significado, o propósito. Um propósito que nem eu sabia que tinha, que ainda se manifestava de maneira intuitiva. Logo no primeiro ano, comecei a perceber que o que inspirava um pouquinho cada um não era a dica de decoração em si, mas o mundo de possibilidades e de liberdade que o convite ao "Faça Você Mesmo" podia proporcionar. Eu não falava de decoração. Eu falava de descoberta, de autonomia, de criatividade, de um resgate lúdico, quase que ingênuo. Ingênua, eu. <3

Você sabe a revolução pessoal que um "Você me inspira" pode causar? É uma honra, mas ao mesmo tempo, uma tremenda de uma responsabilidade. Por outro lado, acabei descobrindo dentro de mim que inspirar pessoas era o meu propósito de vida e a minha ferramenta seria esse universo que é tão meu, o do artesanato, do feito à mão, do "vai lá e faz". Eu fui... e fiz. E o que começou com um blog virou uma pontinha na televisão, parceria com marcas, oficinas e outros projetos que me deram a autonomia de abandonar o mundo corporativo e viver do Casa de Colorir.

"Ahhh, que sonho!". Também achava que seria... mas senta aqui pra eu te contar que nem tudo é um conto de fadas. Quando o seu hobby vira o seu sustento... com prazos, obrigações e carga horária intensa, o quê acaba virando o seu hobby? Pois é. Sabe quando tá tudo tão bem num namoro que você resolve morar junto e vê, na sua frente, o desgaste da relação levando o encanto pelo ralo? Putz, que cilada! Mas com muita calma e amor, consegui ponderar esses aspectos mais frios do trabalho e me reconectar com o afeto, com a paixão que eu tinha em manter o blog. 

E quando tudo estava caminhando para a mais perfeita ordem nesse espacinho virtual que divido com você há tanto tempo... BUM. Me vem o convite para desenvolver um projeto de minha autoria para a TV, projeto hoje que atende pelo nome de "Mais Cor Por Favor" e que já é um filhinho que anda sozinho e que até já fala. <3 Junto com o projeto veio a difícil decisão a ser tomada:  eu quero ser uma apresentadora de TV? Porque fazer uma ponta no programa da sua fada madrinha é uma coisa. Segurar um programa diário, de 1 hora por dia, no charisma é outra bem mais extrema.  A audiência é implacável, o jogo é intenso e eu não estaria protegida nessa página virtual que é a minha casa. Na minha casa, as pessoas falam comigo com bastante educação. Agora, eu é que estaria entrando na casa delas. Todo dia. Sem pedir. Já viu, né. Ao mesmo tempo, o "Mais Cor Por Favor" era a oportunidade, no momento certo, para expandir a filosofia do Casa de Colorir de forma estratosférica. E eu estava preparada. Um programa diário de "Faça Você Mesmo", com foco em reaproveitamento, e que consegue colocar o próprio morador como protagonista dessa mudança da própria casa. O discurso do blog, agora na TV! Que conquista.

Ao longo desses 7 anos de blog, a cultura do "Faça Você Mesmo" se expandiu de uma forma impressionante e caminhou de mãos dadas com o crescimento do Youtube, do Pinterest. Hoje, pensou num tutorial, você encontra online e o melhor: em vídeo, ó que lindo. Na TV, você ainda conta com o "Mais Cor Por Favor" que, todo santo dia, por uma hora por dia, te apresenta todo o tipo de ideia de "Faça Você Mesmo". E é justamente nesse ponto que eu queria chegar - demorei mas cheguei! Com tanto passo-a-passo, tanto tutorial e tanta solução disponível, como o blog pode fazer a diferença? 

O blog anda parado por um tempo porque simplesmente eu havia perdido o propósito desse canal. Todo o meu conhecimento e energia foi canalizado para o programa, que é concebido e apresentado por mim. E não me entenda mal, é muito raso pensar que eu troquei o blog pela TV, é mais otimista que isso! É como se o blog agora tivesse imagem e som e funcionasse na TV, conseguindo atingir não só as pessoas que já gostavam do Casa de Colorir, mas também conquistando novas pessoas. Muito mais novas pessoas! Dessa forma, colocar um tutorial aqui parecia redundante. E assim, o blog foi sobrevivendo, tímido, resiliente, mas presente.

Aqui, tudo indo devagar. Na TV, tudo indo na pressão. Mas na vida real, essa aqui que estamos todos tocando, tá tudo tão estranho, não é mesmo? São tempos ásperos, incertos, que estão até nos tirando um pouco do brilho e do otimismo. Sonhar? Tá sendo um ato de resistência. E é no meio desse desencontro de valores da vida real que eu me sinto inspirada, mais uma vez, a retomar o blog. Acredito que temos assuntos a tratar que antecedem o que é falado na TV. Antes do passo-a-passo, sinto que se faz necessário falarmos de inspiração, de auto-estima e dos bloqueios que nos impedem de termos uma conexão mais afetuosa. E por quê não começarmos com a nossa casa e como nos relacionamos com ela?

Em tempos de bombardeio de vídeos e imagens inspiradoras de Pinterest e Instagram, sinto que um retrocesso se faz necessário. Uma volta láaaa em 2009, quando a gente sentava na frente do computador com uma xícara de chá ou uma taça de vinho e.... lia. Pois é. Quando foi a última vez que você leu mais de 15 linhas na Internet? Quando foi a última vez que você leu algo na internet e levou essa reflexão para o restante do seu dia?

Esse blog nunca teve como objetivo a audiência. Aliás, acredito que essa mudança possa até dar uma agravada nessa questão de números. Mas aqui, eles passam longe. Não somos números, não somos views. Precisamos olhar, mas também sermos olhados. E sinto que tem tanta coisa que falta dentro de cada um para que, de fato, a gente levante a bunda da cadeira com um rolo de tinta na mão e saia pintando... Falta tempo, falta confiança, falta um olhar mais amoroso para a própria casa, falta uma valorização do seu tempo livre, da sua noção de prazer/trabalho... São sobre esses bloqueios, essas dúvidas e esses anseios que eu quero falar. Sobre o desejo de ter uma casa feliz e, mais do que isso, trazer felicidade pra quem ali morar. Isso não inviabiliza tudo o que é mostrado pelo "Mais Cor", pelo contrário! É como se aqui fosse o nosso estágio de preparação, de inspiração e de afastar os medos que nos bloqueiam. Uma incubadora de confiança para esse universo do "Faça Você Mesmo". Estando prontos e confiantes, o "Mais Cor" é o nosso passso dois, o passo prático!

Se prepara. Aqui, vamos ler muito. Se tudo der certo, refletir e nos inspirar também. Num mundo tão antissocial que é o da Rede Social, eu te convido a ser acolhido por aqui. Com calma, sabendo que aqui você não tá sozinho. Esse blog tem nome e tem autora, re-prazer, Thalita. <3

Continuamos seguindo?