Cores de Almodóvar

16/11/2016



Estava eu no Facebook, comecei a ler um desabafo que havia sido compartilhado por uma amiga de amiga. Falava de um barraco em fila do Mundial, todo mundo cansado, tarde da noite. Quem nunca? :) Um texto saboroso, envolvente, cômico e muito, mas muito pessoal! Como não se identificar com cada cliente daquela fila 27? O autor poderia ter sido qualquer um de nós, se não fosse o talento quase que sem esforço (talento, né mores) para transformar um causo do dia a dia numa crônica deliciosamente cômica. A partir desse texto, veio o meu convite: "Vem escrever assim sobre a vida aqui no blog? Quais são suas aventuras e experiências no mundo da decoração ou do faça você mesmo"?

E aqui está, Marina Morena, estreando nessa página tão amada. Espero que você se sinta tão abraçado e envolvido com seu jeito de contar histórias como eu fiquei. Pega um café, um chá, ou que seja uma aguinha gelada no copo de alumínio e vem. Bem vinda, Marina. :)





Cores de Almodóvar 

A primeira vez que eu experimentei fazer um móvel pra mim mesma foi quando eu casei e fui morar com meu marido num quarto e sala no Catete, levando com a gente todos os móveis que o resto da família tinha em casa e não estava usando.
Quando eu imaginava minha própria casa eu sempre me imaginava “garimpando peças” super descoladas e exclusivas em “lojinhas cheias de charme” mas na vida real o meu armário foi um organizador preto e cinza de plástico da Casa e Video por quase um ano e na única vez em que alguma coisa foi “garimpada” foi quando o marido (gringo, importou de NY o hábito de trazer coisas da rua pra casa) trouxe um mago de fibra de vidro, de alguma escola de samba, empesteado com carrapato, da lixeira comunitária do prédio. Custou os olhos da cara dedetizar a casa depois.
Assistindo um desses programas de decoração na tv eu resolvi fazer umas prateleiras de caixote de feira. É super fácil, baratinho - disseram todos os amigos que já eram iniciados nos paranauês - você vai adorar! Primeira coisa que pensei: os caixotes. Tem que ser caixote de laranja, explicou uma amiga que já está no nível pallet de DIY. Enquanto você tá aí pintando vasinho de planta com spray nego tá fazendo torre Eiffel de pallet na sala sem nem precisar de furadeira. Pallet é riqueza e glamour no mundo da bricolagem (não inventei, bricolagem existe mesmo, quando eu era criança meu pai me levava na Leroy Merlin e eu ficava rindo sozinha das plaquinhas. Céus, como a gente é bobo na vida)
Fui na banquinha de laranja, apalpei os caixotes de laranja. Eu não sei o que as laranjas aprontaram em outra vida (#primaveradaslaranjas #foralaranjada) mas o caixote de laranja tem uma resistência completamente diferente dos outros. Mais firme, madeira mais escura, fundo reforçado.
- a dona vai querer levar uns caixotes?
- vou sim, posso levar quantos?
- quantos a senhora quiser, tá só cinco reais cada.
O cara da laranja não é otário. Aliás se tem uma coisa que carioca tem medo é de ser otário, Carioca tem mais medo de ser otário do que tem de ser corno. Corno ouve uns pagodes antigos, entorna umas cachaça, fica tudo safo. Otário não, uma vez otário vai ser otário pra sempre. E se tem uma coisa que o cara da laranja não quer é ser otário. Ta ligado no movimento do povo catando os caixotes pra fazer “arte”, ele também vê televisão. Te viu chegar com a listinha de material na mão.
Peguei três, paguei e segui com os trambolhos pra loja de material de construção, esse lugar mágico em que tudo tem que ser pedido com códigos próprios e particulares e segurança (experimenta pedir sem firmar a voz, ainda mais sendo mulher. “a senhora não quer checar pra ter certeza? se levar errado não troca…”) Deixei mais uma grana. Tá, não ia ser barato. Mas ia ficar vermelho, ia ficar amarelo, minha casa ia ser coloridona, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo. Agora tava suave, molinho.
Só que não tava. O próximo passo era lixar. Só quem já lixou alguma coisa num quarto e sala sabe o que é ver a poeira invadindo a sua vida, sua casa-coração (leia na voz do Toni Garrido) e ficando pra sempre. Não tem aspirador, roomba, reza ou ebó que remova  a poeira depois de uma lixada violenta. Melhor perguntar pra poeira qual o signo dela e começar a sinastria porque vai ser pra vida toda. Talvez dê pra pintar sem lixar, eu pensei, focando na esperança, visualizando com a força toda de “O Segredo” a prateleira colorida na parede, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo. Então, não dá. E agora tem que esperar secar a cagada pra lixar MAIS a camada de tinta pintada no desespero. Lixa, lixa, lixa, opa tá molhado aqui, ah tá, são apenas as minhas lágrimas de sofrimento-dedo com cãibra e/ou sangrando. Terminou de lixar? Tem que limpar TUDO pra pre-pintar (sim, nem pintar, aquele treco que você aprendeu na aula de artes com o guache compartilhado, fazendo aquele sol maroto atrás da montanha, é fácil) senão a poeira da lixadagem gruda na tinta. Perai, joga-tudo-no-chão-ataque de pelanca,  tem que limpar TUDO pra sujar de novo. Tem. Respira, bebe coca-cola, come coxinha. Tudo uma bosta, tudo com gosto de poeira de lixa. Tua vida agora uma poeira de lixa toda. Pinta de branco, espera secar, pinta de branco, espera secar. Ah, já ficou legalzinho branco né? Não, para. Não desiste, logo agora, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo. Liga pra amiga, não desiste amiga, vai ser super fácil, você vai adorar! Pinta de cor, mancha até o cabelo de tinta, cachorro passa e tá com o rabo cagado de tinta. Limpa tudo, espera secar. Pinta de cor, mancha tudo de tinta, espera secar. Nossa, ficou lindo!
Corta pra semana que vem, azamiga vem ver: ai, que lindo! Foi dificil?

  • É super fácil, baratinho. Faz também, você vai adorar!

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